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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Declaração do Aldo Rebelo CONTRA as Florestas

Fragmentos do Relatório Aldo Rebelo sobre o Código Floretal

A harmonia entre os chamados povos da floresta e o meio em que vivem - na verdade sobrevivem - não passa de ficção produzida para filmes como Avatar, de James Cameron, que levam às lágrimas plateias confortavelmente instaladas em modernas salas de cinema dos shopping centers, cercadas de praças de alimentação, onde ao estalar de dedos aparece como por mágica qualquer tipo de comida desejada pelo emocionado espectador. Provavelmente a maioria, ao saborear o suculento bife ou a fresca salada não faz a menor ideia da luta entre o homem e meio ambiente na Amazônia, nas quantidades de demandas por alimento saudável, livres de parasitas de todos os tipos que disputam com o ser humano o direito à vida. Talvez seja essa a real “verdade inconveniente”.

Se os chamados povos da floresta, índios e caboclos, depois de séculos de luta contra o meio inóspito, ainda ali vivem como viviam seus antepassados há centenas ou milhares de anos, certamente não é porque a tais povos satisfaçam as condições de vida características dessas eras passadas - quando se vivia 30 anos em média - mergulhados no isolamento, completamente dominados pelas forças da natureza, perambulando nus ou seminus, abrigados em choças insalubres, infestadas de insetos e fumaça, lutando em condições absolutamente desiguais contra o meio hostil, que não lhes permite ir além das condições mais rústicas e primitivas de vida de seus ancestrais. (pg. 14)

Assim se apresenta o caso da conquista econômica da Amazônia: luta tenaz do homem contra a floresta e contra a água. Contra o excesso de vitalidade da floresta e contra a desordenada abundância da água dos seus rios. Água e floresta que parecem ter feito um pacto da natureza ecológica, para se apoderarem de todos os domínios da região. O homem tem que lutar de maneira constante contra esta floresta que superocupou todo o solo descoberto e que oprime e asfixia toda a fauna terrestre, inclusive o homem, sob o peso opressor de suas sombras densas, das densas copas verdes de seus milhares de espécimes vegetais, do denso bafo de sua transpiração. Luta contra a água dos rios que transformam com violência, contra a água das chuvas intermináveis, contra o vapor d’água da atmosfera, que dá mofo e corrompe os víveres. Contra a água estagnada das lagoas, dos igapós e dos igarapés. Contra a correnteza. Contra a pororoca. Enfim, contra todos os exageros e desmandos da água fazendo e desfazendo a terra. Fertilizando-a e despojando-a de seus elementos de vida. Criando ilhas e marés interiores numa geografia de perpétua improvisação, ao sabor de suas violências...... “Para vencer a força desadorada da natureza ainda em formação, para abrir brechas nesses cerrados batalhões de árvores inexpugnáveis, seria necessária uma sábia estratégia do elemento humano”.

Seria preciso, antes de tudo, que ele concentrasse as suas forças. (pag. 15)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Sem a Floresta Amazônica, nosso futuro dormirá para sempre no passado

“É verdade que, depois que homem branco chegou, o homem vermelho nunca mais foi o mesmo. Ele trouxe o espírito da doença, a gripe que matou nosso povo. E o espírito da ganância que roubou nossas árvores e matou nossos bichos. No passado, já fomos milhões. Hoje, somos somente cinco mil índios à beira do Xingu, não sei por quanto tempo.”(Cacique Mutua)

Já nos alertava Camões, em Os Lusíadas, que é mais prudente ouvir a voz do Velho do Restelo – um dentre as inúmeras pessoas que se amontoaram na praia do Restelo para se despedir dos navegantes - do que seguir os impulsos progressistas de Vasco da Gama que, a serviço do Rei D. Manuel, partiu em 1497 em busca da riqueza e glória no além mar. Passados mais de 500 anos, a reforma do Código Florestal Brasileiro e o projeto de construção da mega usina hidrelétrica Belo Monte ameaçam a sobrevivência da maior floresta tropical do planeta, trazendo à tona, novamente, a questão do progresso a qualquer custo. Tanto a Belo Monte quanto as mudanças no Código Florestal obedecem à lógica do capital e do modelo desenvolvimentista.
Belo Monte, se for construída, irá provocar enormes impactos socioambientais, alagando 516 quilômetros quadrados em pleno coração da Floresta Amazônica, que tem um papel essencial ao equilíbrio climático global e onde habitam metade de todas as espécies terrestres do mundo (incluindo cerca de 180 etnias indígenas); provocando o deslocamento de mais de 30 mil habitantes, a migração de 200 mil pessoas para a região de Altamira (Pará), a expulsão de 13 mil índios, comunidades tradicionais ribeirinhas e agricultores, o desvio de 80% das águas do rio Xingu, além do desaparecimento de paisagens únicas, sítios arqueológicos e uma riquíssima biodiversidade.
O novo Código Florestal, por sua vez, irá significar a concessão de maior impunidade para os madeireiros da Amazônia; a legalização de áreas de risco (encostas, topos de morros e várzeas), aumentando a chance de tragédias ambientais; a aceleração do desmatamento e perda da biodiversidade, agravando os impactos sobre o meio ambiente e beneficiando, exclusivamente, os fazendeiros e proprietários de terra. A progressiva diminuição de mata ciliar no entorno dos rios já vem sendo sentida nas catástrofes provocadas pelas enchentes no Brasil inteiro e só tende a se agravar.
No mesmo dia em que essas mudanças foram aprovadas pela bancada ruralista da Câmara dos Deputados (ironicamente no Ano Internacional das Florestas), o país acordou com a notícia do assassinato, a tiros, do líder ambientalista João Carlos Ribeiro da Silva e sua esposa, mortos em defesa da Amazônia, da mesma forma que Chico Mendes e vários outros ambientalistas, escancarando para o mundo inteiro que, quando os interesses dos fazendeiros estão em jogo, quem dá as cartas nesse país, onde persistem fortes traços do coronelismo colonialista, é o agronegócio.
Não apenas no Brasil, a intensificação de ocorrências de desastres ambientais evidencia, cada vez mais, que o modelo de desenvolvimento baseado na exploração e consumo ilimitados dos recursos naturais, atingiu uma situação-limite, colocando em risco a continuidade da vida no planeta e suscitando uma crescente retomada dos temas ambientais que marcaram os anos 70. As crises do petróleo, do abastecimento de água e de alimento, as mudanças climáticas, a perda da biodiversidade e outros dilemas do mundo contemporâneo, confirmam as tendências anunciadas no livro Limits to Growth, de 1972, mostrando que o mundo seguiu exatamente a trajetória insustentável definida como cenário provável neste livro premonitório.
Atualmente, a “pegada ecológica” humana já ultrapassa em 30% a capacidade de regeneração do planeta. Se não reduzirmos substancialmente nosso consumo, a economia mundial entrará em colapso em meados deste século. Mas a causa principal desse quadro de “agonia planetária”, como define Edgar Morin, não reside na superpopulação de quase sete bilhões de habitantes, mas principalmente no enorme desequilíbrio na distribuição de renda, no desregramento econômico mundial e na relação predatória e irracional com a natureza, conduzindo-nos a uma situação de insustentabilidade do modus vivendi hegemônico.
Em contraposição, a Floresta Amazônica poderia se tornar o ponto de partida para um desenvolvimento ecossocial do Brasil, que é uma potência ambiental por sua abundância em terra, água, sol e biodiversidade. Esses são os ingredientes que deveriam ser utilizados no aproveitamento econômico da biodiversidade da floresta com envolvimento da população local, tais como a fruticultura nativa, os diversos tipos de óleos e a imensa variedade de fitoterápicos e fármacos ainda não descobertos e com grande potencial de cura de diversas doenças.
No próximo ano, teremos a Rio+20: que realidade o Brasil terá a apresentar nesta conferência mundial, transcorridos 20 anos da Eco-92? A perspectiva de mais desmatamento e impunidade para os crimes ambientais? A perda da biodiversidade e o aumento da emissão de gases de efeito estufa? O aumento das fronteiras agrícolas para beneficiar o agronegócio?
Nosso sentido de percepção da realidade ainda é muito falho e fragmentado. Como afirma Morin, “os indivíduos de hoje, consomem o presente, deixam-se fascinar por mil futilidades, tagarelam sem jamais se compreenderem na torre de Babel das bugigangas”. Na metáfora do Mito da Caverna, Platão demonstra que somos como um grupo de homens sentados em uma caverna, voltados o tempo todo para os fundos, percebendo apenas as sombras e imagens fantasmagóricas causadas pelo que acontece do lado de fora da caverna, mas não o que de fato acontece. Acreditamos que essas imagens são verdadeiras, tomando o espectro pela realidade. O que vemos são apenas reflexos, mas certos de que essa é a única realidade possível, permanecemos estáticos, sem mudar de posição. A mídia, com destaque para a televisão, representa hoje a parede no fundo da caverna e tem como função, como alerta Jean-Luc Godard, produzir o “esquecimento”, através de uma profusão de notícias desconectadas, que impedem a percepção clara da realidade.
A grande encruzilhada do século XXI parece residir na imperativa tomada de consciência da nossa identidade planetária. O que está em jogo é, de um lado, a preservação da diversidade cultural e natural ameaçados de homogeneização e destruição e, de outro, a transformação revolucionária das relações sociais e dos valores individuais e coletivos, a partir da liberação de nossos potenciais psíquicos, espirituais, éticos, culturais e sociais. Trata-se, enfim, da necessidade de substituirmos o conceito de desenvolvimento pautado na visão economicista por um conceito de desenvolvimento multidimensional.
O desafio crucial da humanidade, portanto, é o do despertar da percepção coletiva em relação à urgência por atitudes e ações que minimizem a crise planetária. E é somente a partir da identificação e do enfrentamento dos grandes males do mundo contemporâneo – como a miséria, as guerras e o imenso desequilíbrio ecológico - que poderemos livrar nossa mãe Terra de um destino trágico. Não há mais tempo para a inércia. Como nos adverte o Cacique Mutua: “O homem branco devia saber que nada cresce se não prestar reverência à vida e à natureza. Tudo que acontecer aqui vai voar com o Vento que não tem fronteiras. Recairá um dia em calor e sofrimento para outros povos distantes do mundo.”

Texto de Sandra Mara Ortegosa, arquiteta, antropóloga e ativista no Movimento Nova Friburgo em Transição. Publicado no http://www.forumseculo21.com.br/impressa/

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Porque tanta violência com o povo defensor da floresta?

 Se os empreendimentos que ocorrem  nestas terras, seja a construção da usina hidrelétrica no rio Xingú, seja a abertura das florestas, agora com  a possibilidade da permissão do novo Código Florestal - para pastagens ou para derrubada de árvores pelas madeireiras, fossem algo legítimo, apoiada pelo povo brasileiro, careceria matar os que são contra? Se estão matando pessoas, ameaçando outras que lutam pela floresta em pé, será que não tem algo bem sujo nisso? 


Ocorre que, além das doenças e do alcoolismo, os madeireiros levaram também aos indígenas o aliciamento, o suborno, para que permitissem a derrubada de árvores em suas terras. “Em troca da concordância de alguns líderes, os madeireiros lhes davam dinheiro e até automóveis”, revela o cacique, que esteve por duas semanas em Brasília em busca de proteção à sua vida e à de outros líderes Suruí junto à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR).

O cacique afirma que os madeireiros espalham que floresta é atraso. “E aí eles falam que precisa matar quem quer atrasar o progresso. Eles mandam recado. Os madeireiros é que falam em matar. Não é o empresário. Ele manda o “toreiro” (o indivíduo que derruba a árvore e prepara a tora para transporte). Depois é que o empresário compra. Deve dar muito lucro. Por isso mandam matar. Eles dizem: tem de matar o Almir que aí os outros líderes recuam.”
 
“Minha morte está encomendada. Em algum ponto da floresta está sendo preparada uma emboscada. Só estão esperando uma situação mais favorável.”

A sociedade espera que a proteção chegue antes do pistoleiro.

E como se não bastassem estes atentados contra a vida, os povos da floresta ainda sofrem com violência da própria polícia... eles estão sendo violentados de diversas maneiras, seja moralmente, seja fisicamente!

Tomados pelo desespero de um futuro incerto, ribeirinhos que estão sendo ameaçados pelo alagamento de suas casas diante da aprovação da construção da usina no rio Xingú, abandonam seus lares para se aglomerarem em locais sem a mínima condição para recebê-los. As regiões próximas ao empreendimento não possuem infraestrutura para as pessoas que já vivem nestes locais e a situação encontrada é de caos.

Segundo matéria publicada no site do MAB - Movimento dos Atingidos por Barragens:

Os moradores de uma área que será alagada pela barragem e que ocuparam um terreno na parte alta da cidade sofreram dois despejos violentos pela polícia. Segundo os moradores, a polícia atuou sem mandado de reintegração de posse e usou balas de borracha e bombas de gás para despejá-los. Durante a ação, muitas pessoas foram detidas e levadas a delegacia.
Segundo informações da Polícia Civil, a área ocupada pertence à Eletronorte, a principal acionista de Belo Monte.

 
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